Alguns goles de café/desapego.
— Uma xícara de café bem forte e amargo, por favor! — ela disse se sentando no velho banco de cor amarelo ovo que se posicionava em frente ao balcão.
Seus pensamentos estavam tão pesados que escorriam pelos seus olhos e em seguida se dilatavam no chão… Sua apreensão era notável, tanto que a garçonete até lhe perguntou se precisava de alguma ajuda.
— Só minha xícara de café, por favor. — respondeu ela.
— Aqui! Como o pedido, bem forte e amargo. — disse a garçonete com um sorriso no rosto que logo se fechou ao ver sua cara sisuda.
Primeiro gole. Desceu como um ácido; queimando tudo e um pouco mais. “Ótimo!” — sussurrou ela fazendo uma careta, referindo-se ao café que estava na medida certa. Medida certa para deixa-la um pouco mais ébria e esquecer os problemas, talvez. Então por que não escolher uma garrafa de vodca? Ou um copinho de cachaça? A diferença é que aquela simples xícara de café amargo vinha com uma pequena dose de desapego escondida em seu fundo. Por isso precisaria ser forte e amargo, para queimar de vez todas as esperanças e ilusões encobertas no pequeno coração daquela pequena menina. Pequena por dentro, pois por fora já tinha idade suficiente para fazer o que quiser.
Segundo gole. Esse já não a fez soltar uma careta ou um sussurro, mas a fez deixar uma lagrima cair e se chocar no balcão de madeira velha e cor desbotada. A primeira lágrima foi a que encorajou as restantes, que vieram acompanhadas de pequenos soluços. […] Seus pensamentos voavam longe, mas voavam baixo. Caso o peso os fizesse cair. Ela parecia perdida, seus olhos procuravam o que fazer, enquanto ela só parecia procurar um lugar para se esconder… Uma cafeteria de esquina. Pena que fechava as 22h. Terceiro gole. Tirou da bolsa um maço de cigarros e tragou um… Tragava no ritmo em que suas lágrimas escorriam. A fumaça enchia o buraco em seu peito e depois saia em forma de decepção e desilusão; e por que não ficar e ocupar o buraco deixado pelo coração? — pensou. Quarto gole. 21h56m. A garçonete passou avisando que já iria fechar… Ela arriou a cabeça para esconder seus olhos, que pelo menos não estavam mais tão pesados.
— Já estou acabando. — ela disse passando as mãos na maquiagem borrada, borrando ainda mais o lápis de olho que a mesma insistiu em passar de manhã.
Ultimo gole. O mais amargo de todos. Ainda mais amargo que o primeiro… Desceu arrancando o resto do amor que a tanto fazia sofrer. Arrancou pela raiz. Doeu. A dor escorregou pelos seus olhos e queimou sua pele. A marca de uma lágrima quente em uma noite fria; a marca de um café forte e amargado tomado em uma cafeteria de esquina. 22h. Ela se levantou, levando dentro de si o desapego e deixando suas lágrimas secarem no fundo da xícara. Andou até a porta, soprou no ar a fumaça do ultimo cigarro da noite, o jogou na lixeira ao lado da porta e saiu… Deixou a dor presa no vão da porta e caminhou até sua casa. Mais leve… Tão leve como brisa que soprou seus cabelos.
