E eu sei que aquela vazio ainda vai incomodar, aquele vazio que você causa e ainda causará, mas — tarde da noite, na exaustão do pensamento e na frieza de tentar não sentir, — vai me trazer um pouco de fé, um pouco de você. O vazio me fará suprir um pouco da necessidade que eu tomo todos os dias ao levantar da cama e pensar que você ainda vai voltar. Você não vai voltar. Eu segui em frente. Você seguiu em frente. Somos agora tão opostos e destrutivos, somos tão frios e secos e de repente acabamos não sendo nada. Somente a neblina sustentável pela falta que a memória exagerada causa e pela lágrima surda que cai.
Mas, mesmo desistindo, no meio da avenida ainda vou esperar esbarrar com você e fingir que não te conheço nem um pouco, — mesmo te conhecendo muito — e evitar seus olhos claros, cor-de-mel e tentar demonstrar que não quero nem um pouco você, como se eu fosse um pouco da garota que você vai sentir falta toda vida. Seu braço, ao esbarrar no meu, torcerei para que almeje meu perfume e que engula as nossas lembranças pelo oculto sufoco que encontro no abismo que criamos e nas mentira que inventamos. Vou esperar que você sussurre algo como “me desculpe” só para ter o prazer de ouvir aquela sua voz simplesmente-não-me-toque e me faça sentir suave de novo, leve de novo, altruísta de novo e nem um pouco constrangida por fingir não conhecer você. — Vou esperar que você seja apenas um estranho qualquer, no meio da noite ou da tarde, talvez… Daquela manhã nebulosa que eu queria conhecer. Que talvez conhecesse. Que traduziria muito bem a nossa indiferença. — E vou esperar que você queira me encontrar também.
