Era só mais uma noite normal como todas as outras. Céu limpo, lua minguante e uma casa no meio do campo que mais parecia um vulcão em erupção. Acabava ali uma história de dois anos e meio. O amor já havia acabado há muito tempo, eles não suportavam mais conversar, nem se olhar. A relação que tinham era extremamente física;quando os olhos se fechavam e as bocas se encostavam. O físico respondia mais do que o sentimental, aliás o sentimental já estava morto. Mas eles não se deram conta. O desejo falava mais alto. Gritava, enquanto a dor se calava.
Ele se perguntava onde estava o amor que um dia eles sentiram um pelo outro. E ela se perguntava quando aquela agonia iria acabar. Bem… Acabou. Como dizem: o café esfriou. Ela recolheu suas coisas e colocou-as em uma mala. Saiu de casa. Atravessou o campo até chegar à estrada mais próxima e seguir não só com a viagem, mas com a sua vida.
Ela precisava seguir em frente. Precisava viver de novo uma vida que ela havia deixado para trás. Abriu sua bolsa de ombro e pegou o primeiro cigarro. Soprava a fumaça para fora da janela, como se a mesma limpasse o passado que a 10 minutos tinha decidido deixar pra trás.
Olhou para o retrovisor e sentiu uma forte dor apertar seu peito. Seus olhos ficaram fixos, seu coração quase parou e suas mãos congelaram. Aquela foto... Aquela foto que ficava a tanto tempo pregada naquele retrovisor que mais parecia um acessório do próprio carro. Seria impossível tirá-la.
E aquele sorriso? Aquele sorriso que ela havia abandonado há exatamente 15 minutos atrás... Era tão lindo que até parecia sincero. Aquele sorriso a lembrou de tudo que a fumaça do cigarro havia levado. Lembrou-a de quando eles se conheceram e de como ela se apaixonou de primeira por aquela voz grossa. De quando ela queria ligar para ele, mas não sabia o que falar. De quando seu mundo parecia cair, mas aqueles braços fortes pareciam ser a única coisa que o segurava.
Ela freou e chorou. Se não era feliz antes, não seria feliz agora. Sem ele por perto. Seu aquele contato físico que os faziam esquecer-se de todos os problemas… Deu marcha ré e voltou. Correu a 150 km/h. Entrou no campo e soltou do carro mal estacionado.
Seu amor não estava mais lá. Ela revirou o quarto, a cozinha, o banheiro… Revirou a casa inteira e não o encontrou. Correu até os fundos casa, pensou em encontrá-lo lá. E o encontrou. Misturado as cores do céu e da neblina que tomava o campo. O encontrou de braços abertos, seus pés tocavam a ponta do precipício e idealizavam um movimento simples e rápido: um pulo.
Um simples pulo que ela fez de tudo para tentar impedir. Gritou por dentro primeiro, mas sua voz chegou ao ambiente externo tarde de mais. Ele havia se jogado. Desapareceu naquele branco-azul-escuro para sempre. Nem um ultimo beijo, nem um adeus… Nem um eu te amo, só um pulo!
No começo da noite o céu estava sem estrelas. No final da noite brotou uma estrela do céu.
